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FUTURO
NATURAL

As máscaras são algo que provavelmente comecei a fazer sozinha. Eu tanto as comprava como encontrava, e depois criava algumas de forma muito simplista e elas representavam coisas diferentes. Então meu parceiro e comparsa James Merry passou uma noite em claro e, de manhã, me deu uma máscara, de surpresa. E eu fiquei, tipo: “O quê!?” Era mais ou menos o que eu estava tentando fazer, mas não tinha talento artesanal para tanto. Então ele obviamente foi além, e começou esse tipo de parceria . . . 1—björk

Para celebrar a exposição Björk Digital Brasília, os visitantes podem “vestir” uma máscara em Realidade Aumentada criada especialmente para a ocasião pelo próprio James Merry. A máscara “Medusa” foi usada no início da itinerância de Björk Digital em Sydney (Austrália), em 2016. Feita à mão a partir de plástico néon recortado e encimado por pérolas, o amarelo vívido do adereço reflete a paleta de cores do álbum Vulnicura da artista. A máscara foi usada também na versão em realidade virtual de “Notget”, bem como no videoclipe, dirigidos por Warren Du Preez e Nick Thornton Jones, ambos apresentados na mostra no CCBB Brasília.
Acesse a máscara “Medusa” para Instagram escaneando o código QR com a câmera de seu celular. Aplique o filtro em sua foto ou vídeo selfie e compartilhe usando a hashtag #bjorkccbb.

Björk e eu somos naturalmente introvertidos, mas gostamos de fazer coisas extrovertidas, e uma máscara nos permite conseguir isso lindamente.
—James Merry

O artista plástico James Merry começou a trabalhar com Björk há mais de uma década, em 2009, inicialmente na pesquisa que resultaria no projeto Biophilia. Embora a maior parte de sua direção de arte contribua para os inúmeros projetos de Björk, incluindo vídeos e experiências de realidade virtual, sua habilidade sobrenatural com fios e materiais variados bem como as práticas consagradas do bordado e da confecção de máscaras tornaram-se o foco principal. Exatamente como deveria ser: as máscaras e os bordados de Merry servem como extensões impressionantes das várias personae que Björk adota em suas performances; elas desempenham um papel central em grande parte do vocabulário visual do projeto Björk Digital, em que metamorfose e transformação, além de imagens que se percebem tanto primitivas como futuristas, são centrais.
Talvez a maneira mais rápida de entender os temas que fascinam Merry seja olhar para o livro de 2012, intitulado Anatomies [Anatomias], que traz 21 textos poéticos e uma série de desenhos surreais que combinam elementos orgânicos em amálgamas estranhas. Flores que crescem de ossos, um cérebro do qual brotam botões de lírio, orquídeas que se fundem com testículos. A mistura curiosa testemunha o fascínio de Merry pelo aparentemente exótico e incongruente ao nosso redor e por uma estética que mistura passado e futuro através do insólito na natureza.
Essas formas orgânicas estranhas surgem nas contribuições de Merry para os figurinos de Björk. Certamente, máscaras e avatares são um tema constante na carreira da artista – a transformação facial em “Hunter” e os robôs em “All Is Full of Love” são bons exemplos – e a concentração desse modo específico de criatividade em relação a Björk Digital chama atenção, especialmente porque cada detalhe nesses projetos é significativo. Em “Black Lake”, por exemplo, Merry aplicou um bordado nas meias de Björk. É um toque sutil, mas concorre com a mitologia orgânica maior do projeto, conectando o digital à natureza.
“Björk dizia que um dos temas do álbum, em termos estéticos, eram essas plantas árticas delicadas, mas bastante exuberantes. Eu usei como referência um tipo de tomilho islandês chamado Blóðberg, cujo nome significa ‘rocha de sangue’, pois tem flores avermelhadas que se espalham pelas pedras”, explica Merry. “Não são realmente exibidas, mas são bastante teimosas e se agarram ao chão, onde sobrevivem o ano todo.” Merry diz que pesquisou a planta e, logo antes da gravação do vídeo, bordou-a nas meias. “As flores são esse fio de esperança ou otimismo.”
Outro exemplo de contribuição incrível de Merry é a máscara “Moth” [Mariposa], de arame e pérola, para “Notget”. “Para mim, esse foi um grande adorno de cabeça”, diz Merry. “Até então, os adornos de cabeça eram bordados planos que Björk usava como um véu, o que faz sentido para o álbum e para a apresentação; um véu é uma espécie de escudo, mas da maneira mais poética possível”, ele disse. E segue explicando sua motivação para criar formas mais tridimensionais de design: “Comecei a querer que os fios saltassem e se afastassem do rosto. Fiz uma máscara para o Sunday Times em que o fio fazia algo assim, e percebi que queria fazer mais dessas peças escultóricas. Tecnicamente, não são bordados, mas, para mim, é como se as linhas se movimentassem em três dimensões”.
Além da máscara “Moth” para “Notget”, Merry criou a máscara “Medusa”, um segundo adorno de cabeça extravagante que ele chama de “um tipo de água-viva néon”. Ele explica: “Trabalhando com Björk, eu me tornei um pouco como um magpie [pássaro preto que leva para o ninho objetos pequenos e brilhantes]; eu me sintonizo com as sutilezas de seus desejos estéticos para um álbum e, quando viajo, vejo coisas e compro coisas que podem ser muito sutis. Neste caso, encontrei o plástico néon e achei interessante, porque havia essa cor amarela de emergência percorrendo todo o projeto e, sob a luz UV, ela fica elétrica”.
Merry adora o poder transformador das máscaras. “Quando você coloca algo no rosto, isso vai tão profundamente até sua essência… certamente muito mais que as roupas.” Ele continua: “Uma máscara tem que parecer perfeitamente adequada ou você se sente péssimo. Felizmente, Björk e eu estamos tão sintonizados que, com as máscaras que faço, quaisquer alterações após a criação são mínimas. Realmente me interessa ver como o processo de disfarce pode ser mais revelador – é engraçado – e provavelmente todas as melhores coisas da vida têm essa ambiguidade em que há um estranho equilíbrio entre se cobrir e ao mesmo tempo revelar uma parte de si mesmo que normalmente está oculta”.
O próprio Merry sentiu o poder das máscaras, quando teve o seu perfil mostrado há dois anos em um vídeo para a Gucci. “De repente, percebi como era estar do outro lado da câmera”, diz ele. “Björk e eu somos naturalmente introvertidos, mas gostamos de fazer coisas extrovertidas, e uma máscara nos permite conseguir isso lindamente. Durante aquela filmagem da Gucci, se eu não estivesse usando uma máscara, teria me sentido muito constrangido. Mas a máscara pode ser esse pequeno escudo que transforma e protege você.”
Para Merry, as máscaras surgem organicamente de suas parcerias com Björk. “Vejo as máscaras quase como frutas”, diz ele. “Trabalhamos juntos e sinto algo crescer, como uma árvore com raízes. Desapareço por duas semanas para trabalhar na máscara e parece que ela absorveu todos os nutrientes de nossas discussões dos meses anteriores.” E o que surgir será inevitavelmente um futuro natural, uma forma que capta as anatomias bizarras e exóticas no mundo natural que nos rodeia.

A máscara, em si, é uma coisa muito interessante, porque é uma maneira de se esconder, mas também de se revelar. Eu me sentia como se tivesse me queimado, com a quantidade de fotos que tiram de mim, com celulares e nessa cultura de selfies e da internet. Vou a um show e sinto [ela imita uma câmera clicando] ao meu redor a noite toda. É uma energia realmente bizarra. Usando máscara, eu me sinto mais protegida. Sinto que posso ser mais eu mesma e aceito o fato de que parte do meu trabalho é ser uma pessoa pública. Entendo – é autoinfligido, certo? Mas também acho importante fazê-lo ao meu modo. 2—björk

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